Quarentena - Parte I

QUARENTENA substantivo feminino
  1. 1.
    porção, número ou conjunto de 40 entidades, seres, objetos etc.
    "uma q. de presentes"
  2. 2.
    período de 40 dias.
  3. 3.  
    reclusão de indivíduos ou animais sadios pelo período máximo de incubação da doença, contado a partir da data do último contato com um caso clínico ou portador, ou da data em que esse indivíduo sadio abandonou o local em que se encontrava a fonte de infecção


TADEU

Perdeu a noção de quantas horas se passaram enquanto ficou escondido naquele estacionamento. Era um estacionamento? Vigas, água gotejando, andares e mais andares de vazio e carros abandonados. Silêncio absoluto e a sensação de estar sendo constantemente vigiado.
Deixaram comida e água... pensando melhor talvez tenha sido dias. Aliviava-se num banheiro imundo e escuro. Havia sinais que pessoas passavam por ali, ao menos de vez em quando: velas derretidas, bitucas de cigarro, uma ou outra peça de roupa ensanguentada. Tinha saudade do morro, tinha saudade da avó, tinha saudade de jogar capoeira.

A kombi chegou de noite, era pilotada por um rapaz imberbe, usando camisa xadrez, que se apresentou como Leandro. Ele carregava uma escopeta:
- Sobre os olhos dele...
Não sabia ao certo como responder, apenas repetiu o mesmo. O rapaz sorriu e abriu a porta traseira para que ele entrasse. Lá dentro cheiro de óleo.
- A gente vai chacoalhar um pouco, Inconnu. Mas vai prum lugar seguro. Você tem sorte. Se por acaso formos parados, você deve fugir sem se preocupar comigo - e bateu na escopeta - imagino que gente como você sabe se defender.
Passou as próximas horas calado, escutando o barulho das ruas e do rádio amador que a kombi carregava. Ele escutava faixas com códigos que não conseguia entender. Depois de muito chacoalhar, o veículo se estabilizou e finalmente parou.  Amanhecia e estava diante do templo de Aparecida.
Deram a volta em uma grande parte da construção pelo lado de fora, até encontrar um Acólito de mais ou menos 35 anos, cabelo já grisalho e um sorriso cansado:
- Sobre os olhos dele, murmurou Leandro, sendo respondido pelo Acólito:
- Voam todas as moscas.
Se abraçaram e tão rápido quanto o cumprimento, foi a despedida. Tadeu se viu a sós com o Acólito enquanto as primeiras luzes da manhã rescindiam sobre a cúpula do Templo. Nunca vira construção tão grandiosa. 
- Meu nome é Cirilo, sou acólito formado e responsável pelos novos que chegam. Você vai ficar um tempo por aqui, Tadeu, não é?
Ele concordou com a cabeça, enquanto Cirilo lhe entregava uma sacola de roupas e alguns papéis.
- Aqui há mudas de roupa, sapatos novos e sua batina, Acólito Tadeu. Os papéis são sua história, você deve memorizá-la e deixar tudo na ponta da língua, sem titubear. Consegui uma cela só para você, mas não sei por quanto tempo, pois estamos bem cheios. Vamos, vista-se.
Enquanto colocava as novas roupas:
- Todos aqui são... fugitivos?
- Não! De maneira nenhuma! Pense que sou o único mosca aqui. Vai te manter seguro! Estamos acima de qualquer suspeita enquanto não te ajeitamos em uma célula, como querem.
- Mosca? Célula?
- Sim, hoje você virou mosca, Inconnu... e estamos preparando uma célula especial para você.

Acólito Cirilo

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